Bosco Martins*
O encontro entre os dois maiores chefes de Estado das Américas ocorre em meio a grandes mutações geopolíticas. A política externa se subordina à lógica econômica. O Brasil tenta reduzir impactos tarifários; os EUA observam com preocupação o avanço chinês na América Latina. Washington passa a ver Brasília menos como parceiro ideológico e mais como peça relevante na disputa global por influência e recursos.
Nossas exportações para os EUA caíram, e as vendas para a China cresceram. Isso não significa que Trump fechou a porta e Pequim resolveu tudo. Apenas mostra que o Brasil redirecionou parte de sua pauta exportadora — sobretudo commodities — para um comprador já dependente de soja, minério e petróleo brasileiros.
Talvez o mais relevante da reunião não seja o que foi dito, mas o que precisou ficar de fora para que ela acontecesse. A diplomacia atual é menos sobre afinidades e mais sobre necessidade. Quando adversários conversam para evitar custos maiores, o debate deixa de ser sobre amizade e passa a ser sobre os limites que a realidade impõe à ideologia.
O elogio de Trump a Lula produz efeito simbólico, mas não elimina divergências estruturais. O encontro funcionou como um pacto provisório entre governos com diferenças narrativas profundas, porém interesses conjunturais convergentes. O Brasil mostrou como tratar o gigante imperial sem arroubos nacionalistas, deixando clara a inviolabilidade da nossa soberania.
Fazer política é sentar e conversar. Lula é líder nato, formado na escola da vida. Trump é grande capitalista, que entende de negócios. O que interessa ao Brasil não é escolher coleira geopolítica mais confortável, mas usar a disputa entre potências para trazer tecnologia, emprego e indústria. Trump aceitou o jogo porque entende de livre iniciativa. Diálogo, respeito e paz: é disso que o mundo precisa.
* é escritor e jornalista













