Wilson Matos – Especial para O Progresso
O avanço da Chikungunya na Reserva Indígena de Dourados escancara uma realidade cruel: o Estado brasileiro segue sendo agente direto da vulnerabilização dos povos indígenas.
Não se trata de fatalidade ou de descuido da comunidade. Trata-se de uma tragédia anunciada — e ignorada.
Dados recentes apontam que cerca de 70% dos casos da doença no município estão concentrados nas aldeias Jaguapiru e Bororó.
Mais grave ainda: aproximadamente 90% dos focos do mosquito transmissor foram encontrados em caixas d’água.
E aqui reside o ponto central que o poder público insiste em esconder: essas caixas d’água não são uma escolha — são uma imposição da negligência estatal.

Sem abastecimento regular, milhares de famílias indígenas são obrigadas a armazenar água em recipientes improvisados. Caminhões-pipa chegam de forma irregular, em alguns locais apenas e somente uma vez por semana.
Diante da escassez, resta à população manter reservatórios abertos, inclusive para captar água da chuva.
O resultado é perverso e previsível: o mesmo recipiente que garante a sobrevivência se transforma em criadouro do mosquito.
O Estado cria o problema e a comunidade sofre as consequências. E, cinicamente, ainda se tenta transferir a culpa para as próprias vítimas.
Não é a primeira vez
Em 2016, durante epidemia de dengue, lideranças indígenas, comunicadores e defensores da comunidade percorreram as aldeias com carros de som, orientando casa por casa.
Já naquele momento, denunciava-se exatamente o mesmo problema: a falta de água encanada regular obrigava o armazenamento e, consequentemente, alimentava o ciclo da doença.
Quase uma década depois, nada mudou. O que se vê hoje é a repetição de um padrão histórico de abandono, onde a omissão estatal deixa de ser falha administrativa e passa a configurar violação sistemática de
direitos fundamentais.
Direito garantido
A crise atual já resultou em mortes e centenas de hospitalizações. Cada número carrega um nome, uma família, uma história interrompida.
Não se pode naturalizar esse cenário.
A Constituição Federal garante o direito à saúde, à dignidade e à vida. A legislação indigenista reforça o dever do Estado de assegurar condições adequadas às comunidades tradicionais.
No entanto, o que ocorre em Dourados é o oposto: ausência de saneamento básico; fornecimento irregular de água; políticas públicas desconectadas da realidade indígena; respostas emergenciais que não atacam a raiz do problema.
Isso não é apenas negligência. É responsabilidade.
Omissão e responsabilização
É preciso dizer com todas as letras: o surto de Chikungunya nas aldeias Jaguapiru e Bororó não pode ser tratado apenas como questão sanitária.
Ele deve ser compreendido
como: consequência direta da omissão estatal; expressão de desigualdade estrutural; possível violação de direitos humanos.
A insistência em ignorar essas condições pode, inclusive, abrir espaço para responsabilização do Estado em âmbito nacional e internacional.
Morrer ou doença
O cenário imposto às comunidades indígenas é desumano. De um lado, a falta de água. De outro, o risco de contaminação.
Não há escolha legítima quando todas as alternativas levam à violação da vida.
Não foi o mosquito que criou essa crise.
É preciso romper com a narrativa simplista que coloca o mosquito como único vilão. O mosquito é apenas o vetor. A causa é política.
O que acontece hoje em Dourados não é um episódio isolado.
É o retrato de um Estado que falha — e que, ao falhar, mata.
















