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COP15 UFMS: A poesia de Manoel Barros e a Biodiversidade

Escritor Arlindo Fernandez, Lia Brambilla Vasques, pro-reitora de Cultura e Esportes UFMS e Bosco Martins, palestrante.. Foto: Divulgação

Durante a programação da COP15 na UFMS, uma palestra na nova Livraria da universidade reuniu alunos e professores em torno de um tema que ultrapassa a literatura: o modo como enxergamos o mundo natural. O escritor e jornalista Bosco Martins, autor de Diálogos do Ócio (Editora UFMS, 2025), compartilhou memórias de sua convivência de três décadas com Manoel de Barros e provocou uma reflexão que conectou poesia e conservação ambiental.
Logo de início, desfez um rótulo recorrente: Manoel não gostava de ser chamado de “poeta da natureza”. Sua relação com o mundo natural era mais complexa — e mais profunda. “Ele entendia a natureza de um modo próprio, quase ao avesso”, destacou Martins, lembrando a ideia do “transver”, conceito caro ao poeta: enxergar além da utilidade, escapar da lógica que reduz tudo ao valor econômico.
É nesse ponto que sua obra encontra, de forma surpreendente, os princípios da COP15. Enquanto a conferência reúne governos e especialistas para discutir estratégias de proteção da biodiversidade e das espécies migratórias, a poesia de Manoel atua em outra camada — menos normativa, mais sensível, mas igualmente essencial. “A COP trabalha com metas e políticas públicas. Manoel trabalha o imaginário humano”, resumiu o palestrante.
A aproximação entre esses dois universos se dá justamente na mudança de olhar. O poeta nos convida a perceber a grandeza do que é aparentemente insignificante: o inseto, a rã, a água parada — aquilo que o mundo moderno costuma ignorar. Já a COP15 busca transformar essa urgência em ações concretas de preservação. Em comum, ambos apontam para a necessidade de rever nossa relação com a natureza.
No caso do Pantanal, essa conexão ganha contornos ainda mais simbólicos. Embora frequentemente associado ao bioma, Manoel de Barros rejeitava classificações. Sua obra não se limita a geografias: o Pantanal é, antes de tudo, memória e linguagem. “Ele dizia não ser poeta da natureza nem pantaneiro. Sua poesia é do mundo”, destacou Martins. E talvez seja justamente nessa recusa de rótulos que reside sua força universal.
Mais do que escrever sobre a natureza, Manoel escrevia a partir dela — como quem pertence. Sua poesia dissolve fronteiras entre o humano e o natural, propondo uma espécie de comunhão silenciosa, em contraste com a lógica contemporânea de controle e exploração.
Para Bosco Martins, essa dimensão torna a obra do poeta uma forma potente de educação ambiental. “Não a dos manuais, mas a que transforma a sensibilidade. Antes de proteger, é preciso aprender a amar. Antes de preservar, é preciso enxergar”, afirmou. Nesse sentido, nenhum acordo internacional será suficiente sem uma mudança mais profunda: a do olhar.
Ao final da palestra, o autor autografou exemplares de Diálogos do Ócio e anunciou uma nova edição da obra ainda este ano, com textos inéditos, imagens e um poema dedicado ao escritor transfronteiriço Douglas Diegues.

Após a palestra, sessão de autógrafos com os autores. Foto :Divulgação

“O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina.”

Na sequência, o escritor e documentarista Arlindo Fernandez apresentou trechos do documentário O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina, produzido com a TV Cultura e considerado um dos registros mais sensíveis sobre Manoel de Barros. Em seguida, lançou seu quarto livro, Upload.
Fernandez relembrou uma conversa marcante com o poeta. “Perguntei se ele entendia de física quântica. Manoel sorriu e disse: ‘Eu não!’. Respondi que um dia escreveria um romance com as tintas da mecânica quântica e da poesia dele.” O projeto se concretizou em um romance que mistura amor, linguagem e reflexão — temas que, segundo ele, dialogam com a visão poética de Manoel, para quem o amor, no uso convencional, era uma palavra esvaziada.
Sua obra transita entre o cotidiano e o extraordinário, criando narrativas onde o humano e o cósmico coexistem, numa escrita que tensiona limites e amplia percepções.

A programação especial da UFMS segue até domingo (29)

Em Campo Grande, como parte das atividades ligadas à 15ª Conferência das Partes sobre Espécies Migratórias, promovida pela ONU, as ações ocorrem em diversos espaços, como o Parque das Nações Indígenas, o Bioparque Pantanal e o Shopping Bosque dos Ipês.
Paralelamente, a universidade realiza a COP15 POP, com atividades gratuitas que integram ciência, cultura e biodiversidade. “É um esforço coletivo para levar temas científicos e literários a toda a sociedade”, destacou a reitora Camila Ítavo.
Ao final das atividades, a pró-reitora de Cultura e Esportes, Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques, convidou o público para a abertura oficial da nova Livraria da UFMS.