Início Cotidiano O beijo da ponte e o silêncio da memória

O beijo da ponte e o silêncio da memória

Walter Guaritá Marquez: no final dos anos 1990 ele já acreditava na rota bioceânica.

Há beijos que duram um segundo. Outros atravessam gerações.

Antonio Coca

Nesta semana, o Brasil e o Paraguai viveram um desses momentos que entram para a história. As duas extremidades da ponte sobre o Rio Paraguai, ligando Porto Murtinho a Carmelo Peralta, finalmente se encontraram. Os engenheiros chamam de fechamento da estrutura. Eu prefiro chamar de beijo.

Beijo porque pontes não são feitas apenas de concreto e aço. São construídas de sonhos, insistência e esperança. E quando duas margens, durante tanto tempo separadas, finalmente se encontram, não há nome mais bonito para isso.

Esse beijo aproxima o Atlântico do Pacífico. Aproxima o Brasil do Paraguai, da Argentina e do Chile. Aproxima os caminhões carregados de soja, milho, carne e celulose dos portos de Iquique, Antofagasta e tantos outros do litoral chileno. Aproxima também os produtos asiáticos dos consumidores sul-americanos.

A geografia agradece.

A economia comemora.

O comércio faz contas.

As cidades enxergam desenvolvimento onde antes havia apenas distância.

Todos sorriem diante da fotografia da ponte.

Mas enquanto o concreto se encontrava no meio do rio, a memória parecia continuar separada por um abismo.

Toda grande obra costuma ganhar novos pais à medida que vai ficando pronta. É um velho costume da política e da natureza humana. Quando tudo era apenas uma ideia, quase ninguém queria a paternidade. Agora que a ponte desponta no horizonte, sobram mãos para cortar a fita inaugural.

Só que algumas mãos jamais deveriam ser esquecidas.

Entre elas estão as de Walter Guaritá Marquez.

Muito antes de a expressão “Rota Bioceânica” frequentar discursos, seminários, vídeos institucionais e campanhas publicitárias, ele já falava dela. Sonhava com ela. Defendia-a quando muitos ainda enxergavam apenas um mapa sobre a mesa.

Chamavam-no de Dom Walter.

Argentinos, paraguaios e chilenos conheciam seu entusiasmo quase missionário. Não defendia apenas uma estrada. Defendia um novo destino para uma região inteira.

Lutou.

Convenceu.

Articulou.

Gastou sola de sapato e voz.

E morreu sem ver o beijo da ponte.

A história também não seria justa se esquecesse outro personagem dessa caminhada: Jorge Soria Quiroga, ex-prefeito de Iquique e hoje senador chileno. Ao lado do então prefeito Braz Melo, fez nascer a irmandade entre Dourados e Iquique, cidades que passaram a ser oficialmente irmãs quando muitos ainda sequer acreditavam que um corredor bioceânico pudesse sair do papel.

Aqueles gestos diplomáticos também abriram caminhos.

Nem toda ponte é feita de concreto.

Algumas são construídas com apertos de mão.

Outras, com amizade.

Outras ainda, com visão de futuro.

Infelizmente, a memória costuma ter o estranho hábito de inaugurar obras sem convidar quem desenhou os primeiros esboços.

É por isso que o beijo da ponte desperta um sentimento agridoce.

Alegria por ver um sonho coletivo ganhando forma.

Tristeza por perceber que alguns dos sonhadores já não estão aqui para contemplar a paisagem.

Ainda há tempo de corrigir essa injustiça.

Não é preciso erguer um monumento gigantesco. Às vezes, uma simples placa basta. Um pequeno marco à margem da rodovia. Um nome gravado no concreto. Um gesto discreto que diga às futuras gerações que aquele caminho não nasceu por acaso.

Que houve homens e mulheres que acreditaram quando ninguém acreditava.

Que Walter Guaritá Marquez foi um deles.

As pontes ligam margens.

A gratidão liga gerações.

Sem ela, corremos o risco de transformar a história em propaganda e a memória em conveniência.

Porque existe um velho ditado que nunca perde a atualidade: papagaio come o milho, e periquito leva a fama.

Tomara que isso não aconteça com a Rota Bioceânica.

Ela merece mais que concreto.

Merece memória.