Há beijos que duram um segundo. Outros atravessam gerações.
Antonio Coca
Nesta semana, o Brasil e o Paraguai viveram um desses momentos que entram para a história. As duas extremidades da ponte sobre o Rio Paraguai, ligando Porto Murtinho a Carmelo Peralta, finalmente se encontraram. Os engenheiros chamam de fechamento da estrutura. Eu prefiro chamar de beijo.
Beijo porque pontes não são feitas apenas de concreto e aço. São construídas de sonhos, insistência e esperança. E quando duas margens, durante tanto tempo separadas, finalmente se encontram, não há nome mais bonito para isso.
Esse beijo aproxima o Atlântico do Pacífico. Aproxima o Brasil do Paraguai, da Argentina e do Chile. Aproxima os caminhões carregados de soja, milho, carne e celulose dos portos de Iquique, Antofagasta e tantos outros do litoral chileno. Aproxima também os produtos asiáticos dos consumidores sul-americanos.
A geografia agradece.
A economia comemora.
O comércio faz contas.
As cidades enxergam desenvolvimento onde antes havia apenas distância.
Todos sorriem diante da fotografia da ponte.
Mas enquanto o concreto se encontrava no meio do rio, a memória parecia continuar separada por um abismo.
Toda grande obra costuma ganhar novos pais à medida que vai ficando pronta. É um velho costume da política e da natureza humana. Quando tudo era apenas uma ideia, quase ninguém queria a paternidade. Agora que a ponte desponta no horizonte, sobram mãos para cortar a fita inaugural.
Só que algumas mãos jamais deveriam ser esquecidas.
Entre elas estão as de Walter Guaritá Marquez.
Muito antes de a expressão “Rota Bioceânica” frequentar discursos, seminários, vídeos institucionais e campanhas publicitárias, ele já falava dela. Sonhava com ela. Defendia-a quando muitos ainda enxergavam apenas um mapa sobre a mesa.
Chamavam-no de Dom Walter.
Argentinos, paraguaios e chilenos conheciam seu entusiasmo quase missionário. Não defendia apenas uma estrada. Defendia um novo destino para uma região inteira.
Lutou.
Convenceu.
Articulou.
Gastou sola de sapato e voz.
E morreu sem ver o beijo da ponte.
A história também não seria justa se esquecesse outro personagem dessa caminhada: Jorge Soria Quiroga, ex-prefeito de Iquique e hoje senador chileno. Ao lado do então prefeito Braz Melo, fez nascer a irmandade entre Dourados e Iquique, cidades que passaram a ser oficialmente irmãs quando muitos ainda sequer acreditavam que um corredor bioceânico pudesse sair do papel.
Aqueles gestos diplomáticos também abriram caminhos.
Nem toda ponte é feita de concreto.
Algumas são construídas com apertos de mão.
Outras, com amizade.
Outras ainda, com visão de futuro.
Infelizmente, a memória costuma ter o estranho hábito de inaugurar obras sem convidar quem desenhou os primeiros esboços.
É por isso que o beijo da ponte desperta um sentimento agridoce.
Alegria por ver um sonho coletivo ganhando forma.
Tristeza por perceber que alguns dos sonhadores já não estão aqui para contemplar a paisagem.
Ainda há tempo de corrigir essa injustiça.
Não é preciso erguer um monumento gigantesco. Às vezes, uma simples placa basta. Um pequeno marco à margem da rodovia. Um nome gravado no concreto. Um gesto discreto que diga às futuras gerações que aquele caminho não nasceu por acaso.
Que houve homens e mulheres que acreditaram quando ninguém acreditava.
Que Walter Guaritá Marquez foi um deles.
As pontes ligam margens.
A gratidão liga gerações.
Sem ela, corremos o risco de transformar a história em propaganda e a memória em conveniência.
Porque existe um velho ditado que nunca perde a atualidade: papagaio come o milho, e periquito leva a fama.
Tomara que isso não aconteça com a Rota Bioceânica.
Ela merece mais que concreto.
Merece memória.










