O sistema eletrônico, adotado após caos na contagem de votos em 1994, é um dos mais seguros do mundo, mas enfrenta ataques sem fundamentos da extrema direita
Anita Tetslaff*
A transparência do sistema eleitoral brasileiro foi levada a um novo patamar recentemente, quando o TSE submeteu o equipamento a uma verdadeira autópsia pública. Transmitida ao vivo por canais oficiais, a demonstração conduzida por técnicos da Corte Eleitoral revelou, peça por peça, o funcionamento interno da máquina e os protocolos que blindam o sigilo do voto. O gesto, inédito em sua exposição, teve como objetivo desmontar, no sentido literal e figurado, as narrativas de vulnerabilidade que circularam nos últimos anos.
O questionamento sobre a segurança das urnas eletrônicas brasileiras voltou a ganhar força, alimentado por discursos inflamados de candidatos da extrema direita que ecoam inclusive na imprensa internacional. Contrariando as suspeitas, o sistema eletrônico de votação do Brasil não é apenas seguro, como foi criado justamente para combater as fraudes endêmicas do voto de papel, como a que anulou a eleição de 1994 no Rio de Janeiro. A história revela uma ironia em que o mesmo político que hoje lidera ataques ao sistema foi, em 1993, um de seus maiores defensores.
Em 1994, o caos na contagem dos votos para deputado no Rio de Janeiro expôs as fragilidades do voto impresso. O Tribunal Superior Eleitoral foi forçado a anular toda a votação no estado diante das evidências de adulteração. Esse episódio acelerou a transição para o modelo eletrônico, que começou a ser testado em 1996 em 30% das seções eleitorais e, em 2000, já cobria todo o país.
Pesquisadores da Universidade de Illinois, em estudo publicado no periódico Latin American Politics and Society, documentam que o sistema de papel anterior era vulnerável a “adição de votos às folhas de apuração, alegação de que votos da oposição eram ilegíveis e preenchimento de nomes de candidatos em cédulas em branco”. A introdução da urna eletrônica representou, portanto, uma resposta institucional a uma crise de legitimidade.
O sistema atual conta com mais de 30 camadas de segurança, conforme detalha o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Antes de cada eleição, a urna passa pelo Teste Público de Segurança (TPS), aberto a especialistas externos que tentam violar seus sistemas sem obter êxito.
Entre os principais mecanismos de segurança estão a zerésima, um relatório impresso antes da votação que comprova que a urna está vazia, atestando que não há votos registrados previamente, e o boletim de urna, um extrato impresso ao final da apuração, afixado na porta da seção eleitoral para consulta pública, permitindo que qualquer cidadão verifique os resultados daquela seção. Da mesma forma, o código-fonte aberto fica disponível para auditoria por partidos políticos, Polícia Federal, universidades, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e observadores internacionais, garantindo transparência total ao processo. Por fim, a assinatura digital assegura que qualquer tentativa de alteração não autorizada no sistema da urna a trava imediatamente, impedindo a geração de resultados válidos e protegendo a integridade dos votos.
Embora opositores afirmem que o Brasil é exceção no uso do voto eletrônico, 34 países adotam algum tipo de controle eletrônico na contagem de votos, e 17 utilizam sistema semelhante ao brasileiro, incluindo França, Índia, México e partes dos Estados Unidos. O Brasil se destaca pela velocidade, mesmo com mais de 2,13 milhões de eleitores, o país apura os resultados em poucas horas, o que seria inviável com o voto de papel.
A principal voz contra as urnas eletrônicas no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, construiu sua carreira política, com 28 anos no Congresso, sendo eleito exatamente por esse sistema. Em 1993, quando deputado, ele próprio reclamava das fraudes no voto de papel e defendia a modernização.
Recentemente, às vésperas das eleições de 2022, o presidente voltou a exigir a impressão do voto, argumentando que a ausência de registro físico facilitaria fraudes, alegação que, segundo a Justiça Eleitoral, nunca foi comprovada. Uma investigação do Tribunal Superior Eleitoral concluiu que o sistema “eliminou o histórico de fraudes eleitorais” e que, desde 1996, “nunca houve qualquer ocorrência registrada de fraude eleitoral”.
A urna eletrônica brasileira não é perfeita nem imune a questionamentos, e é saudável que o debate exista. No entanto, as evidências apontam para um sistema que, em três décadas, provou ser mais seguro, transparente e eficiente do que o modelo anterior. As denúncias sem fundamento, alimentadas por interesses políticos, não apenas desinformam a sociedade como ameaçam a credibilidade de um processo que, ironicamente, foi construído para reparar as falhas do voto impresso que hoje seus críticos defendem.
A democracia brasileira exige vigilância constante, mas também exige que as suspeitas sejam baseadas em fatos, não em especulações que, repetidas à exaustão, tentam transformar uma tecnologia consolidada em fantasma. O incômodo, no entanto, nunca parece surgir quando o resultado é favorável àqueles que mais atacam o sistema. As urnas que legitimaram mandatos por décadas, e continuam a fazê-lo quando o placar agrada, entretanto, são subitamente declaradas “indignas” quando viram as costas aos críticos. A seletividade denuncia o que a técnica não consegue esconder, quando a desconfiança não é sobre o equipamento, mas sobre o veredito que ele entrega. Questionar é legítimo; deslegitimar apenas o resultado inconveniente é, no mínimo, sintomático.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.










