{"id":9900,"date":"2026-06-19T12:59:00","date_gmt":"2026-06-19T16:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/progresso.com.br\/?p=9900"},"modified":"2026-06-19T12:37:45","modified_gmt":"2026-06-19T16:37:45","slug":"a-camisa-que-era-de-todos-e-virou-de-um-lado-so-como-o-brasil-perdeu-seu-maior-simbolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/progresso.com.br\/index.php\/2026\/06\/19\/a-camisa-que-era-de-todos-e-virou-de-um-lado-so-como-o-brasil-perdeu-seu-maior-simbolo\/","title":{"rendered":"A camisa que era de todos e virou de um lado s\u00f3: como o Brasil perdeu seu maior s\u00edmbolo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Anita Tetslaff*<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Ela j\u00e1 foi o abra\u00e7o que o Brasil dava em si mesmo a cada quatro anos. A camisa amarela da sele\u00e7\u00e3o, um dos s\u00edmbolos nacionais mais reconhecidos do planeta, atravessou d\u00e9cadas como um patrim\u00f4nio afetivo compartilhado por 213 milh\u00f5es de brasileiros, independentemente de partido, regi\u00e3o ou classe social. Nos \u00faltimos anos, no entanto, vestir o amarelo deixou de ser apenas torcer. Passou a ser declarar posi\u00e7\u00e3o. E, para muitos, tornou-se um gesto t\u00e3o carregado ideologicamente que exige justificativa. Os s\u00edmbolos nacionais foram sequestrados por um projeto pol\u00edtico e por que devolv\u00ea-los ao povo \u00e9 uma urg\u00eancia democr\u00e1tica.<br>O fen\u00f4meno n\u00e3o surgiu por acaso. Entre 2019 e 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve um esfor\u00e7o deliberado de vincular as cores verde e amarela \u00e0 sua imagem e ao seu projeto pol\u00edtico. Programas sociais consolidados foram renomeados para incorporar as cores da bandeira: o &#8220;Bolsa Fam\u00edlia&#8221; tornou-se &#8220;Aux\u00edlio Brasil&#8221;; o &#8220;Minha Casa, Minha Vida&#8221; passou a se chamar &#8220;Casa Verde e Amarela&#8221;.<br>O pr\u00f3prio Bolsonaro, ao ser perguntado sobre seu principal legado, respondeu: &#8220;h\u00e1 pouco tempo voc\u00ea n\u00e3o via as cores verde e amarela por a\u00ed. Hoje voc\u00ea v\u00ea em qualquer lugar uma bandeira na janela&#8221;. A frase, mais do que autoindulgente, descreveu com precis\u00e3o um fen\u00f4meno real em que a transforma\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos nacionais se converteu em marcadores de identidade de um espectro pol\u00edtico espec\u00edfico.<br>O historiador Eric Hobsbawm chamaria esse movimento de &#8220;tradi\u00e7\u00e3o inventada&#8221;, onde a cria\u00e7\u00e3o deliberada de pr\u00e1ticas simb\u00f3licas \u00e9 usada para produzir continuidade hist\u00f3rica e legitimar projetos pol\u00edticos. O soci\u00f3logo \u00c9mile Durkheim, por sua vez, observou que s\u00edmbolos coletivos funcionam como representa\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria sociedade e, quando monopolizados por um grupo, deixam de unir para come\u00e7ar a dividir. Qualquer semelhan\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<br>O resultado dessa opera\u00e7\u00e3o foi devastador para a coes\u00e3o simb\u00f3lica do pa\u00eds. A camisa amarela, usada durante d\u00e9cadas por torcedores de todas as convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em est\u00e1dios e ruas, passou a sinalizar pertencimento bolsonarista. Pesquisas e relatos indicam que parte da popula\u00e7\u00e3o passou a evitar o uso da camisa em espa\u00e7os p\u00fablicos, receando que sua vestimenta fosse interpretada como manifesta\u00e7\u00e3o de apoio \u00e0 extrema direita.<br>Em 2022, a pr\u00f3pria CBF e seus patrocinadores lan\u00e7aram campanhas publicit\u00e1rias tentando &#8220;despolitizar&#8221; a camisa e resgatar seu car\u00e1ter unificador. O presidente da entidade, Ednaldo Rodrigues, declarou publicamente: &#8220;A camisa da Sele\u00e7\u00e3o \u00e9 de todos os brasileiros, n\u00e3o \u00e9 desse ou daquele&#8221;. O narrador Galv\u00e3o Bueno tamb\u00e9m entrou no debate: &#8220;Ela \u00e9 sua, ela \u00e9 minha, ela \u00e9 de todos n\u00f3s!&#8221;.<br>No entanto, as tentativas esbarraram em uma outra realidade. Em outubro daquele ano, a CBF presenteou um executivo da Nike com a camisa de n\u00famero 22, o mesmo n\u00famero de Bolsonaro na elei\u00e7\u00e3o. A entidade alegou que se tratava de refer\u00eancia ao ano da Copa, mas o epis\u00f3dio acendeu alertas sobre a dificuldade de separar o s\u00edmbolo da pol\u00edtica.<br>Se a direita se apropriou, a esquerda, por sua vez, abandonou. Parte significativa do campo progressista sempre tratou os s\u00edmbolos nacionais com desconforto, associando sua exalta\u00e7\u00e3o ao nacionalismo conservador e \u00e0 mem\u00f3ria da ditadura militar. O problema, apontam analistas, \u00e9 que a recusa em disputar esse terreno simb\u00f3lico produziu um efeito contr\u00e1rio, ao se afastar da bandeira e das cores nacionais, a esquerda deixou este espa\u00e7o vazio, pronto para ser ocupado.<br>O presidente Lula, j\u00e1 eleito, reconheceu o problema e declarou publicamente: &#8220;A gente n\u00e3o tem que ter vergonha de vestir a nossa camisa verde e amarela. O verde e amarelo n\u00e3o \u00e9 de candidato, n\u00e3o \u00e9 de partido. O verde e amarelo s\u00e3o as cores para 213 milh\u00f5es de habitantes que amam este pa\u00eds&#8221;. A fala, embora necess\u00e1ria, chegou tarde, depois que o estrago simb\u00f3lico j\u00e1 estava feito.<br>Em 2026, um novo epis\u00f3dio escancarou a profundidade do problema. O an\u00fancio de que a sele\u00e7\u00e3o brasileira poderia ter uma camisa predominantemente vermelha, em parceria com a marca Jordan, gerou mais de 4,3 milh\u00f5es de men\u00e7\u00f5es nas redes sociais em menos de 24 horas. Os termos mais buscados n\u00e3o eram sobre futebol ou design mas &#8220;camisa do PT&#8221;, &#8220;Lula&#8221;, &#8220;o Brasil n\u00e3o ser\u00e1 vermelho&#8221; dominaram as conversas.<br>Como analisou o CEO da ag\u00eancia Ativaweb, Alek Maracaj\u00e1: &#8220;Quando uma camisa da Sele\u00e7\u00e3o gera mais engajamento pol\u00edtico do que esportivo \u00e9 sinal de que a polariza\u00e7\u00e3o virou uniforme oficial no Brasil&#8221;. O dado \u00e9 alarmante porque revela que o s\u00edmbolo m\u00e1ximo da uni\u00e3o esportiva nacional foi completamente capturado pela l\u00f3gica da guerra ideol\u00f3gica.<br>A lei brasileira estabelece que os s\u00edmbolos nacionais \u2013 bandeira, hino, armas e selo \u2013 s\u00e3o bens p\u00fablicos, patrim\u00f4nios de toda a na\u00e7\u00e3o. A camisa da sele\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o seja um s\u00edmbolo oficial no mesmo sentido, tornou-se, por uso e costume, uma extens\u00e3o viva da bandeira no cotidiano.<br>A origem da camisa amarela, ali\u00e1s, \u00e9 um exemplo da pot\u00eancia simb\u00f3lica do futebol brasileiro. Criada em 1953 a partir de um concurso p\u00fablico promovido pelo jornal &#8220;Correio da Manh\u00e3&#8221;, foi desenhada por Aldyr Garcia Schlee, um ga\u00facho de 19 anos, que venceu entre centenas de propostas. N\u00e3o havia pol\u00edtica ali. Havia a tentativa de construir um s\u00edmbolo que representasse o pa\u00eds.<br>E representou. Durante d\u00e9cadas, a camisa foi usada por ditos e opositores da ditadura, por ricos e pobres, por nordestinos e sulistas, por petistas e tucanos. Ela funcionava, como descreve a literatura popular, como &#8220;o Brasil inteiro, por alguns minutos, olhando para a mesma dire\u00e7\u00e3o&#8221;. Esse Brasil, no entanto, parece ter se perdido.<br>Devolver a camisa ao povo brasileiro n\u00e3o \u00e9 um gesto ing\u00eanuo ou meramente simb\u00f3lico. \u00c9 uma necessidade republicana. Os s\u00edmbolos nacionais n\u00e3o pertencem a um espectro ideol\u00f3gico, pertencem ao povo do Brasil, em sua multiplicidade de cores, sotaques e cren\u00e7as.<br>O caminho para a reapropria\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica desses s\u00edmbolos passa por educa\u00e7\u00e3o, por campanhas institucionais consistentes e, sobretudo, por um esfor\u00e7o coletivo de desarmar o olhar. Usar a camisa amarela n\u00e3o pode mais exigir justificativa. Cantar o hino nacional n\u00e3o pode ser ato de bravata ideol\u00f3gica. A bandeira hasteada na janela n\u00e3o pode ser lida como amea\u00e7a ou provoca\u00e7\u00e3o.<br>O Brasil que pulsa nas vilas, nos campinhos de terra, nos bares de esquina e nas casas simples onde &#8220;sempre cabe mais um&#8221; merece reencontrar seus s\u00edmbolos sem pedir licen\u00e7a. A camisa da sele\u00e7\u00e3o, antes de qualquer palanque, antes de qualquer ideologia, pertence a todos os brasileiros que colocam a m\u00e3o no peito para cantar, sem vergonha, sem medo, sem ter que explicar que n\u00e3o \u00e9 daquele lado, \u00e9 s\u00f3 do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>*Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educa\u00e7\u00e3o, na \u00c1rea de Concentra\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria e Pol\u00edticas e Gest\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o, pela UFGD. Especialista em Administra\u00e7\u00e3o de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anita Tetslaff* Ela j\u00e1 foi o abra\u00e7o que o Brasil dava em si mesmo a cada quatro anos. A camisa amarela da sele\u00e7\u00e3o, um dos s\u00edmbolos nacionais mais reconhecidos do planeta, atravessou d\u00e9cadas como um patrim\u00f4nio afetivo compartilhado por 213 milh\u00f5es de brasileiros, independentemente de partido, regi\u00e3o ou classe social. 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