Psicóloga explica comportamento emocional dos torcedores em meio ao Mundial
Press FC Assessoria
De quatro em quatro anos, os torcedores de clubes distintos se unem para apoiarem a sua nação durante a Copa do Mundo. A competição com duração de aproximadamente um mês é intensa e mexe profundamente com o emocional de cada amante do futebol, causando um quadro de ansiedade e euforia a cada partida.
Quando falamos do Mundial, o ato de torcer por uma seleção não se resume simplesmente em assistir um evento esportivo. Cada jogo é uma vivência diferente, que gera no torcedor uma sensação de pertencimento e memória afetiva. Além disso, a sazonalidade do torneio aumenta a percepção de sua importância, causando assim a ansiedade antecipatória, seja dias ou semanas antes de um confronto decisivo.
“Para o cérebro, a Seleção não é apenas um grupo de jogadores, mas uma extensão da própria identidade do torcedor. Por causa dos nossos ‘neurônios-espelho’, o cérebro do torcedor processa o jogo como se ele estivesse em campo. A incerteza do resultado gera o que chamamos de ‘ansiedade antecipatória’. Evolutivamente, o cérebro humano não lida bem com a incerteza, interpretando-a como uma ameaça. Assim, o mero pensamento do time perdendo aciona o mecanismo de ‘luta ou fuga’, liberando uma cascata de hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina. É um dos poucos momentos na sociedade moderna onde é socialmente aceitável expressar emoções primárias de forma tão intensa e pública: gritar, chorar, abraçar desconhecidos e demonstrar frustração”, revela Priscila Mendes, psicóloga esportiva do Inter de Minas, clube que é parceiro oficial do Flamengo na formação atletas em Minas Gerais.
De acordo com a especialista, os sintomas dessa ansiedade são muitos: dificuldade para dormir (insônia), irritabilidade, angústia, tensão muscular e até sintomas gastrointestinais, o popular “frio na barriga”. Isso acontece e é amplificado pelo cérebro por conta de tudo que envolve a Copa do Mundo e está presente no dia a dia, sejam as ruas decoradas que enfeitam a cidade, as informações que chegam a todo instante pela mídia e até os papos entre amigos.
“Toda essa atmosfera de festa e tensão não mexe apenas com a mente, mas gera um impacto real na saúde física. Fisiologicamente, a liberação intensa de adrenalina causa vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos causado pela contração dos músculos presentes em suas paredes) e aumento brusco da frequência cardíaca e da pressão arterial. Para pessoas saudáveis, isso costuma ser inofensivo. Porém, para indivíduos com doenças cardiovasculares pré-existentes, esse pico de estresse pode ser perigoso. Já psicologicamente, o descontrole emocional também passa a ser prejudicial quando o torcedor perde a capacidade de reflexão, resultando em impulsividade, explosões de raiva, brigas ou até em violência doméstica. Quando a identidade de alguém se funde tanto ao time que uma derrota desencadeia uma depressão temporária, a paixão se tornou patológica”, pondera Priscila.
A psicóloga do Inter de Minas traz ainda algumas recomendações para que a ansiedade não afete a saúde dos torcedores, deixando claro que parar de torcer não é o caminho a ser seguido e sim a autorregulação emocional, já que o esporte gera enormes benefícios de integração social e bem-estar quando vivido de forma saudável. São elas:
Respiração consciente: Durante o jogo, se o coração acelerar demais, pratique a respiração diafragmática (inspirar profundamente e expirar lentamente). Isso ativa o sistema nervoso parassimpático, que atua como um “freio” para a adrenalina;
Pausas estratégicas: No intervalo ou após lances muito tensos, levante-se, caminhe, beba água. Mudar o foco visual ajuda a quebrar a tensão muscular e mental;
Controle de gatilhos: Evite o excesso de estimulantes (café ou energéticos) e modere o consumo de álcool, que diminui a inibição e pode agravar comportamentos agressivos;
Ressignificação cognitiva: Lembre-se de que o esporte é entretenimento. Mantenha expectativas realistas e entenda que o resultado de uma partida de futebol não define o seu valor pessoal nem deve ditar o humor de toda a sua semana;
Atenção aos sinais físicos: Se sentir dor contínua no peito, falta de ar extrema ou palpitações persistentes, não ignore achando que se trata de nervosismo. Procure ajuda médica imediatamente;
Produtividade: o impacto da ansiedade no ambiente de trabalho
A psicóloga também dá um alerta para que essa ansiedade não interfira e ultrapasse o bom senso no ambiente de trabalho. Segundo ela, às vésperas de confrontos decisivos, tal condição impacta diretamente na capacidade de concentração, na memória recente e nas tomadas de decisões dos colaboradores.
Além disso, a rotina de sono e a alimentação costumam ser prejudicadas ao longo do torneio. O consumo de alimentos mais pesados e bebidas alcoólicas durante as transmissões, somado ao hábito de ficar acordado até tarde para acompanhar repercussões e jogos de madrugada, reduz a disposição física no dia seguinte.
A produtividade e o bem-estar profissional estão atrelados ao planejamento diário. Na prática, antecipar volumes de trabalho importantes e manter uma rotina de sono regrada são os mecanismos que sustentam esse equilíbrio.










